terça-feira, 31 de agosto de 2010

O OLHAR

Sentadas. Juntas. Conversando amenidades. Sorrindo. Ah, como sorriam. Eram duas moças. Duas mulheres. Conquistando-se? Quem sabe. O jeito de tirar a mexa solta dos olhos, o riso doce, os gestos exagerados, o toque delicado e discreto nas costas das mãos, os dedos de uma pressionando os outros dedos da outra, tão significativo. Apontavam, olhavam, miravam, viviam! Eram duas mulheres. Uma era mais velha, cheia de domínio, a outra, mais nova, com a meiguice ingênua e insinuada da juventude, gritaria ao mundo, se alguém desafiasse. Sim, com certeza gritaria. E enquanto eu as olhava, num gesto um tanto intrometido, mas inocente, elas se olhavam. Ah, o olhar. Quem já viu os olhos de quem se apaixona entende. Os olhos não mentem. Revelam. Um jeito doce de querer a outra naquele instante, há proteção naqueles olhos, há um ninho aconchegante, há compreensão e afeto. Aquele olhar pertence de quem é dono e é pertencido a alguém. Aquele olhar tem um nome. Ele fita, ele deixa a outra falar, deixa-se esbaldar entre verbos e substantivos e como se cada palavra fosse um impulso, ele se ilumina. E o que era um olhar se torna um beijo. A concretização. O fim iniciando o tudo. E tudo começou nele. O olhar.