quarta-feira, 10 de agosto de 2011

INÍCIO


Suspensa. Como uma teia em tempo de chuva, eu equilibrava-me. Como vim parar aqui? Como o azul, em uma palavra, tornou-se negro? Mau negócio com a vida. Na verdade, somos péssimos administradores e nem adianta pedir empréstimos, pois deus é um agiota de carteirinha. Lembro-me ainda de um sorriso, de sua pele macia, lembro-me apenas e logo o mais me causa náusea. Não consigo não pensar sem sentir dor, sem sentir que perdi, e perdi feio. Copos. Garrafas. Hálito. Não sei mais como terminar os meus dias. O sono abandonou-me, o orgulho abandonou-me, o amor próprio evaporou-se. Estou só e estou esmagada. Como levantar-se depois de tudo? Como seguir em frente? Há quem diga que o amor é um contínuo recomeço. Mas quem disse isso?  Nomes...letras...rostos...quem? Nada. Só consigo enxergar algumas marcas ainda latejando em mim? No meu corpo? Já não sei. Nem sei se sou eu a falar ou alguém a falar por mim! Pobre alma desgarrada, acostuma-te à lama que te espera...toma um fósforo...acende teu cigarro!  Quem disse isso?...?...A noite está alta, a lua dormiu antes da hora e nem há estrelas para se contar. O tempo passa devagar, mas as horas correm. Vou guardar as lembranças para depois, vou economizar lágrimas, vou espalhar sorriso falso e dizer que tudo vai bem. Vou fazer isso e aquilo até que....até que.... Augusto dos Anjos! Foi ele nos seus versos íntimos...como continua mesmo... o beijo, amigo, é a véspera do escarro, a mão que te afaga é a mesma que apedreja...Se alguém causa inda pena na tua chaga, apedreja esta mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija! ... Isso.