Não há silêncio em mim. Um instante só que seja, não há. Se fecho os olhos, se olho a rua, se vejo o nada, há sempre algo burbulhando, fervendo, pronto para receber atenção. Mesmo a solidão não está sozinha. Ser só nunca é desacompanhado. Nós e nossos demônios, eu e me, eu e você, você e o outro, o outro consigo. Uma guerra civil, um lar com buracos negros, uma palavra indefinida. Contínuo. Reticência. Rascunho. E o som, o barulho, o murmurinho saltitando, a imagem pronta, enquadrada, o desejo pronto, imaculado, sendo refeito continuamente pela mente inacabada, pela busca insaciável de se perder.
O silêncio é apenas um ponto seguido. O véu da noiva. Jamais a cortina de ferro. Jamais o dormir. Jamais o não respirar sem perder a vida. Jamais o ser sozinho e só. O silêncio é uma tentativa de fuga, mas como fugir se não há trancas, nem mesmo paredes? Com a imensidão de pensamentos latentes ao deredor...
Mergulho, sinto o zunido ao longe. Ele é o silêncio? Abro os olhos. Tudo está embaçado, tudo novamente indefinido. Volto ao porto. Como encontrar o silêncio em si mesma? Fecho os olhos. Meus pés estão adormecendo. Uma voz que é a minha fala, grita, se mexe. Ela é o silêncio? Apenas ecoa no ar minha voz.
Talvez eu fique mais um pouco. Talvez eu puxe cadeiras para os meus fantasmas. Talvez eu escreva. Talvez eu fique surda. Talvez apenas veja e não fale. Mas já não espero silêncio. Não espero ausências. Deixo minha cabeça queimar, deixo minha imaginação correr. Que não se canse.
Nunca.
Em um casco de ovo? Numa forma de bolo com futuros glacês trabalhados metodicamente? Numa caixa de fósforos? Numa caverna com sombras e uma fogueira? Numa casa engraçada sem teto sem nada?Mesmo não admitindo nem com figuinhas, vivemos de acordo com alguma coisa, enformados em conceitos e princípios e escolhas que dificilmente seremos considerados pessoas livres. E o conceito de liberdade seria apenas poder escolher como você quer o seu cachorro quente.
Será?
Às vezes duvido se realmente temos livre arbítrio, da mesma forma que tenho dúvida se tudo já está escrito e nossas vidas nada mais é do que um roteiro pronto. Como já dizia alguém: há muito mais mistérios entre o céu e a terra que supõe a mente humana. No entanto, é inegável o fato de que a forma como vivemos a nossa vida é marcado tanto pelas nossas escolhas quanto pela sua natureza. Primeiro, por que existe o sim, o não e o talvez. Isso se chama alternativas. E segundo, por que só há o sim, o não e o talvez. Isso se chama limites.
O que quero realmente dizer é o seguinte: onde vivemos é uma parte culpa nossa, somos nós que proporcionamos os nossos limites, porém, nossas escolhas são limitadas, e isso diminui nossa culpa. Confuso? Ambíguo? Uma mesa redonda? Seja como for, se sua morada é um ovo, e você é um pintinho em constante e infinito desenvolvimento; ou sua casinha é uma forma de bolo e você o bolinho, esperando que alguém o enfeite; ou seu lar é a caixa de fósforos e você o palito que vai acender a qualquer momento; ou moras numa caverna, achando que as sombras são a vida real; ou então, tua casa é aquela engraçadinha, sem porta ou janelas, e você, você é o alicerce; seja qual for, você tem parte nisso.
Por isso, dá uma pensadinha antes de desejar morar numa outra casa, já que a casa onde tu moras foi você que escolheu.
Como eu me sinto cansada. É como se eu tivesse andado por um ano inteiro! (!) Eu andei por um ano inteiro! Ou quase, pois ainda faltam algumas horas para meus vinte e seis anos. Se eu me sinto mais velha? Sim. Se eu sinto o peso dos anos se passando? Sim. Se já realizei meus sonhos? Nem a metade. Mas estou caminhando... eu acho.
E sim, sou melhor hoje. Vejo de forma mais larga, longa e alta. Mas não vejo tudo. Talvez nunca veja. Sei que não se aprende tudo de uma vez. E algumas vezes precisamos pisar na lama, se molhar, se queimar, para sabermos que sempre haverá resquícios de sujo, que sentiremos frio e sentiremos dor. Aprendi que confiar não é sinônimo de segurança, pelo contrário, é instabilidade, é correr riscos. E ser sincero não é dizer toda a verdade. Mas nunca minta! Mentir magoa.
Com vinte e seis anos já se sabe que as coisas nunca são como pensamos que sejam. E que tudo muda e nós também precisamos mudar com o tempo, se não, perdemo-nos e passamos a achar que todos estão contra nós, num complô, e frases do tipo “antigamente era melhor” ou “no meu tempo...” passam a fazer parte do nosso vocabulário. E com essa idade a opinião do outro é apenas a opinião do outro, sem nenhuma implicação ou interferência no que pensamos ou fazemos. No entanto, com esses anos nas costas, precisamos ser responsáveis por tudo que fazemos e pensamos. E como há cobranças, como há julgamentos e necessidade de que tenhamos todas as respostas.
Às vezes penso na vida passando pela gente e não nós passando pela vida. Às vezes vejo tudo parado, e só os homens correndo de um lugar para o outro. Às vezes penso num círculo com todo mundo dentro, girando. Mas é só às vezes. Noutras, prefiro não pensar.
Ter vinte e seis e como ter vinte e cinco, vinte e quatro, dezoito, treze. A diferença está nas coisas que se viu e se presenciou. E isso faz toda a diferença. Daqui a um ano ainda serei eu, com outros olhos.
Daqui a um ano, quero ser eu.