terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tudo aquilo que não é importante passa despercebido. Mas hoje o sol estava demasiadamente claro e seu olhar estava no chão. Joan andava em passos rápidos e via sob seus pés a calçada ficar para trás. Sua mente não estava consigo até o momento em que o inesperado lhe acomete um instante, trazendo para si a si mesma. A formiga passa. Era uma formiga grande, carregava sobre seus ombros um pedaço minúsculo de folha verde, que era o dobro do seu tamanho, mas ela seguia firme, a formiga. E Joan também. Outras formigas vieram, passavam, inquietas, como quem está atarefada com um grande evento. Joan já não pisava o chão sem olhar duas vezes. Não que se importasse com as formigas, às vezes até sentia certa repugnância, mas naquele momento aquelas formigas lhe diziam alguma coisa. Ela sabia, teria que tomar cuidado, não poderia pisoteá-las. Perderia algo. Perderia a si mesma? E então percebeu que não estava sozinha. E na sua caminhada as formigas a acompanhava. Joan dando um passo de cada vez, respirando, olhando, vivendo, já não se apressava, não se angustiava, não precisava correr. Viu, no instante lhe oferecido, que tudo seria diferente. Voltou para si como quem volta para casa. Até que não houve mais formigas.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O OLHAR

Sentadas. Juntas. Conversando amenidades. Sorrindo. Ah, como sorriam. Eram duas moças. Duas mulheres. Conquistando-se? Quem sabe. O jeito de tirar a mexa solta dos olhos, o riso doce, os gestos exagerados, o toque delicado e discreto nas costas das mãos, os dedos de uma pressionando os outros dedos da outra, tão significativo. Apontavam, olhavam, miravam, viviam! Eram duas mulheres. Uma era mais velha, cheia de domínio, a outra, mais nova, com a meiguice ingênua e insinuada da juventude, gritaria ao mundo, se alguém desafiasse. Sim, com certeza gritaria. E enquanto eu as olhava, num gesto um tanto intrometido, mas inocente, elas se olhavam. Ah, o olhar. Quem já viu os olhos de quem se apaixona entende. Os olhos não mentem. Revelam. Um jeito doce de querer a outra naquele instante, há proteção naqueles olhos, há um ninho aconchegante, há compreensão e afeto. Aquele olhar pertence de quem é dono e é pertencido a alguém. Aquele olhar tem um nome. Ele fita, ele deixa a outra falar, deixa-se esbaldar entre verbos e substantivos e como se cada palavra fosse um impulso, ele se ilumina. E o que era um olhar se torna um beijo. A concretização. O fim iniciando o tudo. E tudo começou nele. O olhar.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Silêncio!

Não há silêncio em mim. Um instante só que seja, não há. Se fecho os olhos, se olho a rua, se vejo o nada, há sempre algo burbulhando, fervendo, pronto para receber atenção. Mesmo a solidão não está sozinha. Ser só nunca é desacompanhado. Nós e nossos demônios, eu e me, eu e você, você e o outro, o outro consigo. Uma guerra civil, um lar com buracos negros, uma palavra indefinida. Contínuo. Reticência. Rascunho. E o som, o barulho, o murmurinho saltitando, a imagem pronta, enquadrada, o desejo pronto, imaculado, sendo refeito continuamente pela mente inacabada, pela busca insaciável de se perder.

O silêncio é apenas um ponto seguido. O véu da noiva. Jamais a cortina de ferro. Jamais o dormir. Jamais o não respirar sem perder a vida. Jamais o ser sozinho e só. O silêncio é uma tentativa de fuga, mas como fugir se não há trancas, nem mesmo paredes? Com a imensidão de pensamentos latentes ao deredor...

Mergulho, sinto o zunido ao longe. Ele é o silêncio? Abro os olhos. Tudo está embaçado, tudo novamente indefinido. Volto ao porto. Como encontrar o silêncio em si mesma? Fecho os olhos. Meus pés estão adormecendo. Uma voz que é a minha fala, grita, se mexe. Ela é o silêncio? Apenas ecoa no ar minha voz.

Talvez eu fique mais um pouco. Talvez eu puxe cadeiras para os meus fantasmas. Talvez eu escreva. Talvez eu fique surda. Talvez apenas veja e não fale. Mas já não espero silêncio. Não espero ausências. Deixo minha cabeça queimar, deixo minha imaginação correr. Que não se canse.

Nunca.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Onde você vive?


Em um casco de ovo? Numa forma de bolo com futuros glacês trabalhados metodicamente? Numa caixa de fósforos? Numa caverna com sombras e uma fogueira? Numa casa engraçada sem teto sem nada?Mesmo não admitindo nem com figuinhas, vivemos de acordo com alguma coisa, enformados em conceitos e princípios e escolhas que dificilmente seremos considerados pessoas livres. E o conceito de liberdade seria apenas poder escolher como você quer o seu cachorro quente.
Será?
Às vezes duvido se realmente temos livre arbítrio, da mesma forma que tenho dúvida se tudo já está escrito e nossas vidas nada mais é do que um roteiro pronto. Como já dizia alguém: há muito mais mistérios entre o céu e a terra que supõe a mente humana. No entanto, é inegável o fato de que a forma como vivemos a nossa vida é marcado tanto pelas nossas escolhas quanto pela sua natureza. Primeiro, por que existe o sim, o não e o talvez. Isso se chama alternativas. E segundo, por que só há o sim, o não e o talvez. Isso se chama limites.
O que quero realmente dizer é o seguinte: onde vivemos é uma parte culpa nossa, somos nós que proporcionamos os nossos limites, porém, nossas escolhas são limitadas, e isso diminui nossa culpa. Confuso? Ambíguo? Uma mesa redonda? Seja como for, se sua morada é um ovo, e você é um pintinho em constante e infinito desenvolvimento; ou sua casinha é uma forma de bolo e você o bolinho, esperando que alguém o enfeite; ou seu lar é a caixa de fósforos e você o palito que vai acender a qualquer momento; ou moras numa caverna, achando que as sombras são a vida real; ou então, tua casa é aquela engraçadinha, sem porta ou janelas, e você, você é o alicerce; seja qual for, você tem parte nisso.
Por isso, dá uma pensadinha antes de desejar morar numa outra casa, já que a casa onde tu moras foi você que escolheu.

domingo, 11 de julho de 2010

VINTE E SEIS ANOS

Como eu me sinto cansada. É como se eu tivesse andado por um ano inteiro! (!) Eu andei por um ano inteiro! Ou quase, pois ainda faltam algumas horas para meus vinte e seis anos. Se eu me sinto mais velha? Sim. Se eu sinto o peso dos anos se passando? Sim. Se já realizei meus sonhos? Nem a metade. Mas estou caminhando... eu acho.

E sim, sou melhor hoje. Vejo de forma mais larga, longa e alta. Mas não vejo tudo. Talvez nunca veja. Sei que não se aprende tudo de uma vez. E algumas vezes precisamos pisar na lama, se molhar, se queimar, para sabermos que sempre haverá resquícios de sujo, que sentiremos frio e sentiremos dor. Aprendi que confiar não é sinônimo de segurança, pelo contrário, é instabilidade, é correr riscos. E ser sincero não é dizer toda a verdade. Mas nunca minta! Mentir magoa.

Com vinte e seis anos já se sabe que as coisas nunca são como pensamos que sejam. E que tudo muda e nós também precisamos mudar com o tempo, se não, perdemo-nos e passamos a achar que todos estão contra nós, num complô, e frases do tipo “antigamente era melhor” ou “no meu tempo...” passam a fazer parte do nosso vocabulário. E com essa idade a opinião do outro é apenas a opinião do outro, sem nenhuma implicação ou interferência no que pensamos ou fazemos. No entanto, com esses anos nas costas, precisamos ser responsáveis por tudo que fazemos e pensamos. E como há cobranças, como há julgamentos e necessidade de que tenhamos todas as respostas.

Às vezes penso na vida passando pela gente e não nós passando pela vida. Às vezes vejo tudo parado, e só os homens correndo de um lugar para o outro. Às vezes penso num círculo com todo mundo dentro, girando. Mas é só às vezes. Noutras, prefiro não pensar.
Ter vinte e seis e como ter vinte e cinco, vinte e quatro, dezoito, treze. A diferença está nas coisas que se viu e se presenciou. E isso faz toda a diferença. Daqui a um ano ainda serei eu, com outros olhos.

Daqui a um ano, quero ser eu.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

EU

Eu sou o que eu preciso ser. Em cada hora do dia, em cada gesto, cada palavra pronunciada por mim, sou eu constituindo-me. Sou um poço e uma estrada, sou uma multidão de eus, individualmente. Sou temperança e ira. Pura água, uma metamorfose, onde uma hora sou barata, outra hora humana.
É muito fácil descrever-me, o difícil é ser eu sem errar-me. O difícil é aceitar que o inevitável existe e eu não posso não-existir. Cada dia para mim é como mil anos, cada dia é como uma hora vazia. E como eu vivo! Tenho uma gana de viver, e vivo.
Encaro cada dia como único e como se houvesse continuação. Não me ponho em riscos premeditados. E não me perdôo fácil, mesmo sabendo que nem sempre se sabe para onde se está caminhando. Mas reconheço sempre as minhas falhas e me obrigo a melhorar.
Sou fiel aos meus princípios. Quase sempre. Amo quem me ama e me aceita como sou. Amo almas incabadas. Não sou altruísta, mas daria minha vida por quem carrega meu afeto. Daria meu coração batendo, meus rins, minhas veias pulsando. Daria meu tempo. Mas não me peça minha liberdade. Eu luto com dentes e sangue. Eu não arrego. Sou uma asa em fúria.
Sou pelúcia, sou colo, sou rio, sou azul, sou uma montanha com estepes, sou alma gêmea. Da mesma forma que eu sou espinho, sou agulha, sou areia no sapato, um colírio ardente.
Eu sou isso e sou aquilo.
Eu SOU.

terça-feira, 8 de junho de 2010

TEMPO????????



Eu tenho um trilhão e meio de coisas para dizer e falar e tagarelar, mas como já dizia Sr. Coelho, “estou muito atrasada, muito atrasada para uma festa”. Que festa? “Licença, Licença”. Hoje em dia já não temos tempo nem para um café. Mesmo que eu não toma café, eu gostaria muito de ter esse tempo. No entanto, mesmo se eu tivesse, provavelmente o ocuparia com algo para algo. Isso eu reconheço. E é por este motivo que se fez mais uma resolução de meio de ano: VALORIZAR O MEU TEMPO.

Tempo é uma coisa tão preciosa, tão irrecuperável, que não se pode, de jeito nenhum, ser desperdiçado com algo que não traga paz ou que traga desenquilíbrio. Afinal, é nossa vida que está passando. Somos um relógio ambulante!

Por isso, sem mais delongas, eu digo NÃO ao desenquilíbrio e NÃO ao vício de ocupar todo o meu tempo e NÃO ao que se chama “ter o que fazer”. Pois nem sempre não ter o que fazer, significa que não faremos nada.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

NECESSIDADE DE SER TRISTE?

Quando tudo parece no lugar, quando já não temos mais o que fazer, quando tudo está arrumado, sentimos como se ainda existisse vazio e ausências. A felicidade não basta, o que desejamos? O que buscamos? Não sabemos. Sentimos nos faltar algo que nem mesmo podemos definir, descrever, falar sobre. Com o tempo aprendemos a sempre esperar que tudo acabe, não conseguimos aproveitar aquilo que temos para hoje, pensamos no amanhã, pensamos na semana que vem, e realmente tudo passa? Ou somos nós que passamos sozinhos, por não sabermos coexistir com o que nos é dado? Existe alguma necessidade de ser triste? Temos consciência ao menos do que seja felicidade?

A vida está boa, mas as horas passam sem sentido. O dia está bonito, mas não percebemos. A noite iluminada, mas só se vê a escuridão que segura cada estrela. Não aprendemos abrir os olhos, não aprendemos nem mesmo a acordar. Olhe a manhã já ensolarada, veja como o céu é azul. Escute a música, ouça como embala suas emoções. Toque em você, sinta-se. Você está vivo. Tudo lá fora está vivo, por que você está. Mas o inverso disso também continua a vida.

Você é feliz?

E a vida continua passando.

quinta-feira, 11 de março de 2010

A vida poderia ser vivida assim?
Sem relógio do lado
Sem porta
Sem janela
Nem paredes
A vida poderia ser vivida assim.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


Há tantas coisas nas quais penso agora, me confundem a mente. Gostaria de falar sobre algo que eu saiba, mas há sempre vírgulas e reticências naquilo que acredito e sei. Hoje poderia ser um dia feliz, a casa está vazia, não há ruídos e gritos os quais tanto me impacientam, chove lá fora. Poderia. Mas há tanta inquietação em mim. Vasculho-me, reviro-me, procuro a minha ervilha sob o colchão. Pois quando acordamos desses labirintos cotidianos é só o que vemos: uma ervilha, coisa tão pequena pela qual nos ocupamos. Quanto desperdício, quanta energia gasta inutilmente. Percebo minhas “coisas” pequenas, percebo que poderia ser feliz sim, eu posso ser feliz hoje. Eu posso. Mas e essas inquietações?

A questão não é o que estou fazendo, mas o que eu deveria está. Não é o que já fiz, mas o que preciso fazer. Os meus dias passam e consigo mais um ano se vai da minha vida, pergunto-me: por que ainda estou aqui? Por que ainda quero tanto? Dizem que tudo tem seu tempo, nada acontece um segundo antes ou milésimos depois. O destino é exato. Será? Ou posso mudar as horas, como quem mexe nos ponteiros do relógio na parede da sala de estar? Aí está uma pergunta com respostas tão divergentes quanto a pedra e o ar. E a minha resposta? ...

É assim com você? Há momentos em que você não sabe se está indo na direção certa? Há dúvidas quanto à sua pessoa? Você acredita em você? O que você faz quando se sente sozinha e sem esperanças? Como pensas? O que pensas quando há tanto em que pensar?

Hoje pode ser um dia feliz, mas por quê tanta inquietação?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Petra Dufkva

"Ultimamente têm passado muitos anos." RUBEM BRAGA