Não há silêncio em mim. Um instante só que seja, não há. Se fecho os olhos, se olho a rua, se vejo o nada, há sempre algo burbulhando, fervendo, pronto para receber atenção. Mesmo a solidão não está sozinha. Ser só nunca é desacompanhado. Nós e nossos demônios, eu e me, eu e você, você e o outro, o outro consigo. Uma guerra civil, um lar com buracos negros, uma palavra indefinida. Contínuo. Reticência. Rascunho. E o som, o barulho, o murmurinho saltitando, a imagem pronta, enquadrada, o desejo pronto, imaculado, sendo refeito continuamente pela mente inacabada, pela busca insaciável de se perder.
O silêncio é apenas um ponto seguido. O véu da noiva. Jamais a cortina de ferro. Jamais o dormir. Jamais o não respirar sem perder a vida. Jamais o ser sozinho e só. O silêncio é uma tentativa de fuga, mas como fugir se não há trancas, nem mesmo paredes? Com a imensidão de pensamentos latentes ao deredor...
Mergulho, sinto o zunido ao longe. Ele é o silêncio? Abro os olhos. Tudo está embaçado, tudo novamente indefinido. Volto ao porto. Como encontrar o silêncio em si mesma? Fecho os olhos. Meus pés estão adormecendo. Uma voz que é a minha fala, grita, se mexe. Ela é o silêncio? Apenas ecoa no ar minha voz.
Talvez eu fique mais um pouco. Talvez eu puxe cadeiras para os meus fantasmas. Talvez eu escreva. Talvez eu fique surda. Talvez apenas veja e não fale. Mas já não espero silêncio. Não espero ausências. Deixo minha cabeça queimar, deixo minha imaginação correr. Que não se canse.
Nunca.
Zona de Conforto
Há 9 anos


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