Suspensa. Como uma teia em tempo de chuva, eu equilibrava-me. Como vim parar aqui? Como o azul, em uma palavra, tornou-se negro? Mau negócio com a vida. Na verdade, somos péssimos administradores e nem adianta pedir empréstimos, pois deus é um agiota de carteirinha. Lembro-me ainda de um sorriso, de sua pele macia, lembro-me apenas e logo o mais me causa náusea. Não consigo não pensar sem sentir dor, sem sentir que perdi, e perdi feio. Copos. Garrafas. Hálito. Não sei mais como terminar os meus dias. O sono abandonou-me, o orgulho abandonou-me, o amor próprio evaporou-se. Estou só e estou esmagada. Como levantar-se depois de tudo? Como seguir em frente? Há quem diga que o amor é um contínuo recomeço. Mas quem disse isso? Nomes...letras...rostos...quem? Nada. Só consigo enxergar algumas marcas ainda latejando em mim? No meu corpo? Já não sei. Nem sei se sou eu a falar ou alguém a falar por mim! Pobre alma desgarrada, acostuma-te à lama que te espera...toma um fósforo...acende teu cigarro! Quem disse isso?...?...A noite está alta, a lua dormiu antes da hora e nem há estrelas para se contar. O tempo passa devagar, mas as horas correm. Vou guardar as lembranças para depois, vou economizar lágrimas, vou espalhar sorriso falso e dizer que tudo vai bem. Vou fazer isso e aquilo até que....até que.... Augusto dos Anjos! Foi ele nos seus versos íntimos...como continua mesmo... o beijo, amigo, é a véspera do escarro, a mão que te afaga é a mesma que apedreja...Se alguém causa inda pena na tua chaga, apedreja esta mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija! ... Isso.
Zona de Conforto
Há 10 anos


